A equoterapia como uma estratégia para a reabilitação psicossocial

A equoterapia como uma estratégia para a reabilitação psicossocial

Olívia Balster Fiore Correia (lifiore07@gmail.com)

Psicóloga - CRP/5 28.442, Psicóloga do Equoarte, Especialista em saúde mental da infância e adolescência

Mestre e doutoranda em Psicologia Clínica.

 Introdução:

     De acordo com Ribeiro (2007), a psicoterapia é um dos mais valiosos procedimentos contidos na equoterapia, caracterizada por ser um método terapêutico multidisciplinar que utiliza o cavalo como mediador para diversos tipos de transtornos e patologias, sejam elas físicas ou emocionais.

     Contudo, relacionado à área da Psicologia, um outro fator parece relevar à equoterapia a um status de atendimento imprescindível para a melhora de pacientes portadores de algum tipo de transtorno, que é o fato da equoterapia poder ser considerada como uma das estratégias de atendimento na área da reabilitação psicossocial.

     Considerada como um conjunto de procedimentos que procura aumentar as habilidades e diminuir a deficiência de seus pacientes, a reabilitação psicossocial é um dos dispositivos utilizados nas novas discussões acerca do campo da saúde mental, que procura ajudar os pacientes a lidarem com as suas dificuldades, ao mesmo tempo que procura favorecer as suas potencialidades.

     Coadunada ao mesmo propósito, a equoterapia tem como uma de suas metas permitir que o praticante possa trabalhar as suas deficiências, procurando amenizá-las ou até mesmo saná-las, do mesmo modo que procura ajudar este praticante a fomentar e a fortalecer as suas habilidades já adquiridas ou ainda em fase de desenvolvimento.

     O objetivo deste trabalho, pois, é analisar como a equoterapia pode ser útil ao atendimento no campo de saúde mental de nossa sociedade, funcionando como uma estratégia para a reabilitação psicossocial. Para tal, faremos um retrocesso até o desenvolvimento da concepção de saúde mental, para averiguarmos como a reabilitação psicossocial passou a ser uma valiosa ferramenta para o atendimento de doentes mentais. Em seguida, analisaremos as características da equoterapia e como ela pode funcionar como uma das estratégias na área da reabilitação, inclusive estendendo o atendimento, não apenas aos doentes mentais, mas também para todos os tipos de pacientes que se beneficiam deste tipo de atendimento. Por fim, serão feitas as considerações finais. 

 O campo da saúde mental e o desenvolvimento da reabilitação psicossocial

      O conceito de saúde mental é uma noção nova adquirida a partir das discussões realizadas no campo da reforma psiquiátrica. A reforma foi um movimento que surgiu após a Segunda Guerra Mundial, que  procurava questionar o papel da institucionalização como única forma de tratamento aos doentes mentais.

    Voltando um pouco ao tempo, desde o Absolutismo, os loucos passaram a ser excluídos da sociedade, visto que eram considerados como os transgressores das crenças mercantilistas da circulação de mercadorias, idéias e pessoas. Por isso, eram recolhidos e passavam a viver em asilos e/ou hospitais gerais. Contudo, eles não eram a única categoria de indivíduos que desafiavam esta nova ordem. Também os deficientes, as prostitutas e os outros doentes eram considerados os que não produziam e que, portanto, precisavam ser isolados. Isto começou a marcar a lógica da segregação e o começo do assistencialismo, mas, obviamente, não com um caráter de atendimento. Eram apenas sujeitos intoleráveis e que precisavam ser excluídos da sociedade. Não havia ainda a idéia de recuperação e nem de recuperados, não se pensando em reintegração social ou em tratamento.

     Segundo Castel (1978), isto só foi possível, a partir da Idade Moderna, quando o hospital passou a ser também um local, não apenas de morada, mas também de tratamento e produção de conhecimento sobre a loucura.

     Deste modo, ao fim do século XVIII, Phillipe Pinel desenvolveu uma prática clínica da loucura, procedendo através de estudos sistemáticos, observáveis e verificáveis, de modo a conhecer e também a tratar os distúrbios mentais. Disto decorre que, o hospital, a partir do século XVIII, passou a enfatizar a produção da cura e como proceder para se chegar ao melhor atendimento e tratamento para os indivíduos, ao contrário do que ocorria anteriormente, onde o objetivo do hospital não era cuidar dos doentes, mas sim dar assistência aos pobres, segregando-os da sociedade e por conseguinte, das classes mais abastadas.

 

   Entretanto, com Pinel, os loucos continuavam isolados do convívio social, só que agora tinham um local próprio e, então, foi necessário a exigência de um saber sobre a doença mental, que é a psiquiatria. A psiquiatria, portanto, surgiu como discurso científico para legitimar a prática da segregação.  

 

 

 

 

A reabilitação psicossocial

  Segundo Pitta (1996) a reabilitação psicossocial é considerada “um conjunto de meios (programas e serviços) que se desenvolvem para facilitar a vida de pessoas com problemas severos e persistentes de saúde mental (pág. 19)”. Já para Kinoshita (1996), reabilitar significa criar condições para que um paciente possa participar, da maneira que lhe é possível, dos processos de trocas sociais, de modo que ele possa ampliar a sua autonomia. Concluímos, pois, que a reabilitação psicossocial procura desenvolver, do melhor modo possível, a autonomia dos indivíduos com limitações. Contudo, como ela pretende fazer isso e que características possui?

   Em seu livro Libertando identidades, Benedetto Saraceno (1999) começa a explicar o que significa a palavra “entretenimento” e como a mesma é um mecanismo desenvolvido nas práticas hospitalares de cuidado mental que precisa ser abolido nas práticas da reabilitação psicossocial. Diz ele que “entreter” tem dois significados: o primeiro de manter dentro; o segundo, de algo para passar o tempo de modo proveitoso e prazeroso. Dito de outra forma, para ele, estes dois significados reproduzem a lógica hospitalar, de tanto manter os pacientes dentro da instituição, seja ela o próprio hospital, a própria enfermaria, até mesmo os ambulatórios e a própria solidão dos pacientes, isolados e excluídos de seu meio social, quanto mantê-los entretidos em atividades que apenas os permitem passar o tempo, sem que se tratem ou sem que novas possibilidades de existência lhes sejam oferecidas.

  Continua Saraceno (1999) a afirmar que a reabilitação é um dispositivo contra o “entretenimento”, uma lógica que desafia os pacientes a interagirem, a participarem de seu meio social e com isso, a se tratarem. E também uma lógica que desafia os profissionais a procurarem novas estratégias para o atendimento de seu paciente, procurando minimizar as suas dificuldades e a maximizar as suas potencialidades, questionando a noção de que a doença tem seu curso natural, e que, portanto, é irreversível e não tratável.

  Ainda em seu livro, Saraceno (1999) faz uma distinção entre os seguintes termos: -doença ou distúrbio- considerada como a condição física ou mental percebida com o desvio do estado de saúde mental e descrita em termos de sintomas e/ou sinais;

-dano ou hipofunção- é o dano orgânico e/ou funcional a cargo de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica. Ou seja, é aquilo que a doença provoca na pessoa;

-desabilitação- considerada a limitação ou perda de capacidades operativas produzida por hipofunções, isto é, que limitações e incapacidades isto acarretaria nas pessoas;

-deficiência- é a desvantagem, a conseqüência de uma hipofunção e/ou desabilitação que limita ou impede o desempenho do sujeito ou das capacidades de qualquer sujeito. A deficiência é a resposta que a sociedade dá a um sujeito com desabilitação. Ela, portanto, não apenas está relacionada ao sujeito e à doença, mas, sobretudo, ao meio social. Dito de outra forma, a deficiência não existe em si, mas sim é uma desvantagem do sujeito em relação ao seu meio social. Deste modo, o paciente só será deficiente se o meio social não o ajudar.

  Para entendermos estes conceitos melhor, analisemos o seguinte exemplo. Uma pessoa com glaucoma. A sua doença, ou seja, o glaucoma, ocasionaria um dano, que seria a perda ou redução da visão dessa pessoa. Como desabilidade, ela não conseguiria ler, não conseguiria estudar e nem assistir televisão. Por fim, a deficiência dependeria da reação social a desabilidade dessa pessoa. Ou seja, se o seu meio social não oferece livros em braile, estímulos sonoros e/ou táteis ao invés de apenas visuais e ainda tratasse ela de forma diferente e excluída, poderíamos afirmar que haveria uma grande deficiência.

  Para Saraceno (1999), a reabilitação psicossocial lida basicamente com a diminuição da desabilidade e da deficiência. Logo, através de diversos procedimentos, a reabilitação procura aumentar as habilidades de seus pacientes e a diminuir a deficiência. Termina ele por afirmar que isto não acontece senão com a simultaneidade de ações sobre a desabilitação e a deficiência. Mas como promover isso?

   Segundo Saraceno (1999), os melhores prognósticos de doenças mentais ocorrem em países onde há uma maior possibilidade de acolhimento social e interações sociais. Logo, o pilar no atendimento da reabilitação psicossocial são as trocas sociais ocorridas entre os pacientes e o seu meio social. Todo paciente deve ser incluído e participar de seu contexto social, através das formas de relações que pode desenvolver em sua casa, em seu atendimento, em seu trabalho, ou seja, em qualquer local onde possa se relacionar com os outros.

   Saraceno (1999) chama de contratualidade a capacidade do paciente de desenvolver e estabelecer formas de relacionamento social e estabelecer contratos, ou seja, iniciar, manter e/ou barganhar acordos entre duas ou mais pessoas para a execução de algum propósito, sob determinadas condições. Segundo ele, os pacientes apresentam dificuldades em desenvolver a sua contratualidade. Por conseguinte, o objetivo da reabilitação seria aumentar a contratualidade de seus pacientes, já que o hospital psiquiátrico desenvolve baixíssima contratualidade, posto que ele oferece tudo ao paciente, não o permitindo desenvolver coisa alguma.

  Junto com a importância das interações sociais e da promoção da saúde mental para o processo de reabilitação, uma outra característica fundamental da reabilitação psicossocial no Brasil é a atenção ao aspecto clínico e singular de cada paciente. Bezerra (1996) considera que o “fazer a clínica” em saúde mental é muito mais do que lidar apenas com a interioridade psicológica do sujeito, mas sim lidar com toda a rede de subjetividade que o cerca, considerando não apenas a sua interioridade, como também todas as formas de estimulação que auxilie este sujeito a se expressar, produzir sentidos, lidar e desenvolver a sua própria singularidade. Enfim, no campo da saúde mental, a clínica se encontra articulada ao social, o sujeito se constrói e se reconstrói em seu contexto social e entender como isso funciona, nos possibilitará a entender também a importância da equoterapia como uma estratégia de reabilitação psicossocial. Sem esquecer que esta clínica permite também que o sujeito não seja portador apenas de uma doença geral e universal, mas sim um sujeito único e singular que, dentre outras características, apresenta uma doença. E isto também é fundamental para o atendimento na equoterapia.

  Por fim, o campo de saúde mental também nos brinda com outra questão fundamental para entendermos a equoterapia: a questão da multidisciplinaridade. Figueiredo (1997) afirma que o modelo ideal na área da saúde mental é que a equipe que é multiprofissional, ou seja, que conta com médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, dentre outros, se torne uma equipe multidisciplinar. Isto é, que se articule conjuntamente para produzir um saber específico sobre o seu paciente. Deste modo, há áreas de trânsito, trocas de experiências, união de objetivos, de modo que o tratamento possa se desenvolver. Isto porque, quando cada especialista toma conta apenas de seu território de ação, isto se torna burocrático e fragmentado, como se o paciente fosse uma soma de aspectos físicos, psicológicos, fisiológicos, etc. Já com a multidisciplinaridade, um discurso em comum se articula e o paciente passa a ser entendido em sua universalidade, com diversos fatores se influenciando mutuamente e incessantemente, o que permite que novos caminhos possam ser considerados para o seu atendimento.

   Concluindo, a reabilitação psicossocial é encontrada nos serviços de saúde mental de nossa sociedade, sendo um dos mais importantes dispositivos utilizados no atendimento aos nossos doentes mentais. Em se tratando da equoterapia, podemos lutar para que ela se torne também mais uma estratégia para a reabilitação psicossocial, com a vantagem dela englobar não apenas os nossos pacientes com transtornos mentais, como também toda a gama de pacientes que este tipo de atendimento acaba por atender. É o que veremos a seguir.

 A equoterapia como estratégia para a reabilitação psicossocial

  De acordo com a ANDE-BRASIL (2007), a equoterapia é um método tanto terapêutico quanto educacional, que utiliza o cavalo e uma equipe multidisciplinar em várias áreas, como saúde, educação e equitação, de modo a buscar o desenvolvimento de pessoas portadoras de deficiência e/ou com necessidades especiais. O cavalo influencia, através do seu movimento e de seu vínculo afetivo com o paciente, o desenvolvimento motor, psíquico, cognitivo e social do praticante.

  Conforme já dito acima, os pacientes que são atendidos na equoterapia apresentam uma gama de transtornos, nem sempre sendo eles mentais. Principalmente por isso, devemos pensar nela como um tipo de tratamento dos mais valiosos para o atendimento de pacientes na área da saúde mental. Além do que, voltemos a Saraceno (1999) para nos embasar melhor. Quando ele define os termos doença, dano, desabilidade e deficiência, ele considera os sujeitos não apenas pelos seus déficits mentais, mas também por sua condição física ou os seus danos funcionais. Isto nos mostra que podemos estender o atendimento de reabilitação psicossocial a uma gama infinita de pacientes, possibilitando a inúmeros casos um tratamento eficaz e de qualidade. Ao contrário do que existe hoje em nossa sociedade, onde milhares de pessoas ficam excluídas de qualquer possibilidade de atendimento por não ter serviços disponíveis para atender as suas demandas. Caso a equoterapia pudesse ser oferecida como mais um serviço, uma grande parcela da população poderia ser cuidada e devidamente assistida.

   Além disso, se pensarmos no conceito de saúde mental, não podemos nos restringir apenas ao atendimento de pacientes considerados doentes mentais. Pelo contrário, a saúde mental abarca uma conceituação complexa, visto que ela engloba a saúde psíquica do indivíduo em detrimento de sua doença, de sua patologia. Neste caso, a saúde mental não se interessa estritamente pela doença do indivíduo, mas em como o paciente lida com ela e o que é possível que ele faça para compensar ou amenizar as suas desabilidades, de modo a se desenvolver de maneira a mais independente possível. Pautado nisso, podemos englobar o conceito de saúde mental a todos os indivíduos, portadores ou não de doenças mentais.

  Disto decorre que, pouco importa se o indivíduo tem uma desabilidade mental, orgânica ou física, porque, conforme dito, o que interessa é a sua saúde mental, o seu bem-estar psíquico e emocional. O modo como ele reage ao seu transtorno e como é possível se pensar no desenvolvimento de sua saúde mental é aquilo que é o alvo de consideração.

  Isto é perfeitamente aplicado à equoterapía. Em primeiro lugar, porque ela lida com uma diversidade enorme de transtornos, sejam eles mentais, físicos, disruptivos ou orgânicos e por isso se preocupa sempre com a saúde psíquica de seus pacientes. Estando eles psiquicamente equilibrados, conseguindo lidar emocionalmente com as suas desabilidades, podem encontrar motivação para trabalhar as suas dificuldades e aprender a respeitar e a conviver com as suas limitações. Aqui o que importa é a ênfase em sua saúde e não em sua doença. A clínica da equoterapia, assim, como da reabilitação psicossocial, é a clínica da singularidade, da expressão individual de seus medos, anseios, conquistas e sentimentos. Sem julgamentos, sem se considerar que aquele indivíduo é o doente e ponto final, mas sim um paciente singular que apresenta algumas dificuldades em seu desenvolvimento. A doença com o seu curso e prognósticos médicos servem apenas como orientação aos profissionais, e não como amarras que nos impossibilitam de conhecer e nos relacionar com aquele sujeito que está em cima do cavalo. Possibilitar que cada paciente seja portador de sua singularidade e não apenas o portador de uma doença universal é permitir a eles que busquem a sua saúde mental. Este é um dos principais objetivos da equoterapia.

  Para ajudar nisso, o ambiente acolhedor da equoterapia, com as suas árvores, pássaros cantando, o céu azul sobre os praticantes, o olhar do cavalo, o toque quentinho em seu dorso, dentre muitas outras características, permitem que o praticante se desvincule de sua doença, que muitas vezes se encontra atrelada a cama de um hospital, a uma cadeira de rodas, ao confinamento em seus lares, etc. e busque a sua saúde, mobilizando recursos para que consiga superar as suas dificuldades. Dito desta forma, consideramos a equoterapia, nestes termos, um grande potencializador para a saúde mental de seus praticantes.

  Além disso, seguindo a idéia de que a reabilitação tem como objetivo auxiliar os pacientes com limitações a desenvolverem a sua autonomia, da forma que lhe é capaz, tentando inseri-los socialmente, o que dizer da equoterapia? Seja trabalhando a funcionalidade de alguns músculos, seja trabalhando a auto-estima de um praticante, a equoterapia tem como objetivo também reabilitar os seus praticantes, tornando-os mais ativos, menos dependentes, ajudando-os a voltar a estudar, carregar um copo, poderem ir ao banheiro sozinhos…ou seja, procura-se sempre reabilitá-los socialmente, ajudando-os a desenvolver as áreas de dificuldade, respeitando os limites de sua condição, ao mesmo tempo que, se reforça as suas aptidões, fortalecendo as suas capacidades para que se tornem sujeitos mais participativos e integrados em seu contexto social.

  Assim, tal como defendeu Saraceno (1999) a equoterapia também desafia a lógica do “entretenimento”. Buscando cada vez mais a autonomia de seus praticantes, a equoterapia não quer mantê-los “dentro” de suas dificuldades, solidão ou em atendimentos sem sentido. Ao contrário, busca-se que os seus praticantes busquem a sua autonomia, encontrem também no mundo lá “fora” o seu lar, as suas motivações e possa compartilhar com os outros os seus interesses e propósitos.

  Sem falar que a equoterapia não entretém os seus praticantes com atividades prazerosas e sem objetivos terapêuticos. Talvez como uma principal característica definidora da equoterapia que a faz se distinguir e se sobressair de outros tipos de atendimento, é que ela alcança os seus objetivos terapêuticos de forma lúdica, natural e prazerosa para os seus praticantes. Nada melhor do que se desenvolver se divertindo. Mais um ponto para a equoterapia…

  Por fim, a equoterapia tal como a reabilitação psicossocial, trabalha a desabilidade e a deficiência de seus praticantes. Dito de outra forma, como já dito, o foco da equoterapia não é na doença em si, que muitas vezes já está instalada e na maioria das vezes impossível de ser curada. O foco de atendimento se encontra na desabilidade, procurando também ajudar os praticantes a desenvolver as suas habilidades e a diminuir a sua deficiência. Isto é feito através do trabalho na pista com o próprio praticante, procurando ajudá-lo a desenvolver as suas dificuldades físicas e/ou emocionais, mas também propiciando uma diminuição de sua deficiência, seja orientando os cuidadores em como ajudar os seus dependentes a se desenvolverem e se tornarem mais autônomos, como também através do estímulo e orientação em como eles devem se inserir novamente em escolas, trabalhos e em outros aparatos de nossa rede social. Um outro fator também que ajuda na diminuição da deficiência, é a divulgação do método em meios acadêmicos, na mídia, dentre outros, o que possibilita que outras pessoas compreendam e aceitem a diferença.

  Continuando o pensamento de Saraceno (1996) que enfatiza a importância da reabilitação psicossocial como um potencializador da contratualidade de seus pacientes, vejamos a equoterapia. Atuando através de, no mínimo, dois laterais, um condutor, mais o cavalo e o próprio praticante, não fica difícil concluir que é talvez um método terapêutico que mais apresente possibilidade de interações sociais para os seus praticantes e de desenvolvimento de trocas sociais e contratos entre eles. O tempo inteiro durante o atendimento, o praticante precisa trocar, interagir e barganhar com toda a equipe e ainda com o animal. Ele não está sozinho e precisa aprender a esperar, aprender a se expressar para dizer o que quer, aprender a se relacionar com pessoas diferentes, compartilhando com eles os seus afetos, suas necessidades e interesses. Por sua vez, os profissionais, diferentes em sua atuação e personalidade, precisam também interagir com o praticante, possibilitando a ele novas redes de interações sociais. Arriscaríamos a dizer, pois, que a equoterapia seja um dos principais métodos terapêuticos que fomentam a contratualidade de seus pacientes, ou seja, que fomenta e estimula as trocas sociais recíprocas dos praticantes com o seu meio social.

  E é graças também a esta pluralidade de pessoas que envolvem a equoterapia, que ela está de acordo com o pensamento de Figueiredo (1997) sobre a importância da multidisciplinaridade na área da saúde mental. Considerada como um método estritamente multidisciplinar, a equoterapia busca considerar o paciente como um todo. Todos os seus aspectos físicos, emocionais e orgânicos se articulam, possibilitando a construção do sujeito. Deste modo, assim como nenhum aspecto se sobressai sobre o outro, nenhum saber também pode ser considerado mais importante do que o outro. Em vista disso, as especialidades dos profissionais também se articulam, visando ao desenvolvimento integrado do praticante, em uma visão única e global. É devido a isto também que se torna tão prazeroso para os profissionais trabalharem em equoterapia, pois é através da união de objetivos, a divisão de responsabilidades e o compartilhamento de alegrias e angústias que conseguimos planejar nossos atendimentos e a ajudar a todos aqueles que nos procuram em busca de auxílio.

  Deste modo, se torna claro que a equoterapia deveria ser considerada como uma das estratégias da reabilitação psicossocial em nossa sociedade. Com tanta falta de recursos e possibilidades de atendimento a pacientes tão necessitados de cuidado e atenção, este método, por englobar tantas características fundamentais para o atendimento de muitos pacientes, deveria ser considerado ou ser mais estudado como mais um tipo de dispositivo a ser utilizado em nossos serviços de saúde mental, tão carentes de recursos e idéias inovadoras. É o que sempre esperamos.

Considerações finais

  Ao longo deste trabalho, procurou-se mostrar como a equoterapia se assemelha às práticas da reabilitação psicossocial utilizada nos serviços de saúde mental de nossa sociedade. Revisitando o nascimento da hospitalização e o desenvolvimento da reabilitação psicossocial no Brasil, através da definição de suas características, chegou-se a conclusão de que a equoterapia apresenta muitas semelhanças com este método terapêutico, superando-a quando consideramos a gama de pacientes com sintomatologia diversa que procura os nossos atendimentos e que pode se beneficiar do conceito de saúde mental, tão comumente utilizado quando se trata apenas de pacientes portadores de transtornos mentais.

   Embora ela seja um método caro, que precisa de um grande espaço físico e equipes numerosas e bem treinadas, não podemos deixar de esquecer da sua importância e a sua possível utilidade em nossos serviços de atendimento psicossocial. Ainda mais quando consideramos que existam tantos pacientes que estão necessitados de algum tipo de cuidado e atendimento, principalmente quando precisam desenvolver habilidades tão importantes para a sua reintegração social, um dos princípios fundamentais da equoterapia.

  Para terminar, Saraceno (1999) nos chama a atenção para o fato da discussão da reabilitação psicossocial ser uma discussão ética, visto que precisa englobar todas as pessoas preocupadas com a questão da saúde mental e com a socialização legítima dos portadores de transtornos mentais. Acrescentaríamos que a discussão da importância da equoterapia como uma estratégia de reabilitação psicossocial também é uma discussão ética, que precisa englobar os diversos setores de nossa sociedade, sejam eles da área de saúde, política ou até mesmo de saúde pública, de modo a considerar, em primeiro lugar, a importância deste tipo de tratamento àqueles que apresentam algum tipo de sofrimento, de modo a ajudá-los a se desenvolver e a se inserir na própria sociedade que os exclui. Cabe a cada um de nós não fugir de nossa responsabilidade como profissionais atuantes, que precisam lutar por melhores condições a todos aqueles que nos procuram em busca de ajuda. Acolhê-los e cuidar eficazmente deles é o nosso desafio e responsabilidade. E também a nossa maior fonte de orgulho e motivação.

Referências bibliográficas

ANDE-BRASIL (2007). http://www.equoterapia.org.br/equoterapia.php, tirado da Internet em 07/06/2007.

Bezerra, B. (1996). A clínica e a reabilitação psicossocial. Em Ana Pitta (org). Reabilitação psicossocial no Brasil. São Paulo: Editora HUCITEC (137- 142).

Castel, R. (1978). A ordem psiquiátrica: A idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal.

Figueiredo, A. C. (1997). Vastas confusões e atendimentos imperfeitos-A clínica psicanalítica no ambulatório público. Rio de Janeiro: Relume Dumará.

Jorge, M. A. S., Alencar, P. S. S., Belmonte, P. R., Lagrange, V. & Dos Reis, M. (2003). Organização da assistência psiquiátrica. Em Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (org.). Textos de apoio em saúde mental. Rio de Janeiro: Fiocruz (13-48).

Kinoshita, R. T. (1996). Contratualidade e reabilitação psicossocial. Em Ana Pitta (org). Reabilitação psicossocial no Brasil. São Paulo: Editora HUCITEC (55-59).

Pitta, A. (1996). O que é reabilitação psicossocial no Brasil, hoje? Em Ana Pitta (org). Reabilitação psicossocial no Brasil. São Paulo: Editora HUCITEC (19-26).

Ribeiro, A. S. (2007). A psicoterapia na equoterapia. No prelo.

Saraceno, B. (1999). Libertando identidades: Da reabilitação psicossocial à cidadania possível Belo Horizonte: Te Corá Editora.